Da série Conceitos: o estigma secretarial

Ilustração por Owen Gent.


Há alguns anos, escrevi sobre aquilo que chamei de preconceito secretarial. Naquele momento, interessava-me pensar as relações construídas dentro da própria profissão, especialmente quando profissionais de Secretariado passam a medir a importância de seus pares a partir do lugar em que trabalham, do salário que recebem, do cargo de quem assessoram ou do prestígio da organização à qual estão vinculados. Era, portanto, um olhar para dentro: uma tentativa de compreender como nós mesmos podemos reproduzir hierarquias e estabelecer distinções que diminuem profissionais que compartilham conosco um mesmo campo de formação e atuação.

Tenho pensado, contudo, que existe outra dimensão desse debate. Uma que não nasce necessariamente entre nós, embora também possa ser reproduzida por nós. Ela está no modo como socialmente aprendemos a enxergar o Secretariado e, principalmente, no conjunto de ideias que parece acompanhar as palavras secretária e secretário antes mesmo que qualquer profissional tenha a oportunidade de explicar quem é, o que faz, como se formou ou qual é a complexidade do trabalho que desenvolve.

É sobre essa dimensão que quero propor um novo conceito: o estigma secretarial.

Não utilizo a palavra estigma por acaso. Na tradição sociológica, especialmente a partir das contribuições de Erving Goffman, o estigma nos ajuda a pensar como determinadas marcas ou atributos interferem na maneira como os sujeitos são socialmente percebidos. Mais do que uma característica isolada, interessa compreender a relação social que se estabelece a partir dela e a identidade que passa a ser presumida antes mesmo que o indivíduo consiga se apresentar em sua complexidade. O conceito já foi utilizado, inclusive, para pensar processos de construção da identidade de outras profissões. (A identidade profissional dos terapeutas ocupacionais, em Revistas USP)

No Secretariado, penso que podemos fazer um movimento semelhante, embora com nossas particularidades.

Dizer “sou secretária” ou “sou secretário” não comunica apenas uma profissão. Para muitas pessoas, essa afirmação aciona imediatamente um repertório de imagens construído durante décadas. A secretária sentada ao lado da sala do chefe. A pessoa que atende ao telefone. Que organiza a agenda. Que recebe visitantes. Que serve o café. A mulher bem-vestida, discreta, sorridente e permanentemente disponível. Em outras representações, aparece a secretária sedutora, envolvida afetiva ou sexualmente com o chefe. Quando o profissional é homem, outros estereótipos entram em cena e, não raramente, sua masculinidade e sua sexualidade passam a ser questionadas.

Não se trata apenas de uma percepção pessoal. Pesquisas da própria área vêm demonstrando a permanência de estereótipos relacionados à aparência, à subserviência, ao gênero, às relações interpessoais e à orientação sexual no Secretariado. Também apontam para o papel da mídia na reprodução dessas representações e para seus efeitos sobre a formação e o mercado de trabalho. (Secretariado Executivo e os Estereótipos de Gênero, em Revista GESec) Estudos que analisam representações de secretárias na ficção, por exemplo, identificam imaginários que contribuem para a construção de identidades profissionais marcadas pela subalternização, enquanto outras pesquisas discutem especificamente a sexualização e a objetificação historicamente associadas à profissão. (Imaginários sociais e construção de identidades discursivas de secretárias executivas na ficção, em Revista GESec)

O que me interessa, entretanto, não é simplesmente enumerar esses estereótipos, isso já fizemos muitas vezes; agora, talvez seja mais importante perguntar: o que existe por trás deles?

Porque, quando olhamos com um pouco mais de atenção, percebemos que o problema não está apenas na imagem equivocada que a sociedade construiu sobre uma profissão. Existe uma estrutura social sustentando essa imagem.

O Secretariado contemporâneo carrega as marcas de uma profissão profundamente atravessada pelo gênero. Sua consolidação como atividade majoritariamente feminina produziu consequências que ultrapassam a composição numérica da categoria. Historicamente, características como organização, cordialidade, cuidado, disponibilidade, discrição, atenção aos detalhes e capacidade de antecipar necessidades foram associadas ao feminino como se fossem atributos naturais das mulheres, e não competências construídas, desenvolvidas e profissionalizadas.

Está aí uma das questões que mais me inquietam, pois quando uma competência é compreendida como natural, óbvia ou intuitiva, deixa de ser reconhecida como competência.

Se organizar é algo que mulheres “naturalmente sabem fazer”, organizar deixa de parecer trabalho especializado. Se cuidar das relações é uma característica feminina, a gestão dessas relações deixa de ser percebida como competência profissional. Se antecipar demandas, administrar conflitos, organizar informações, mediar interesses e garantir que diferentes atores consigam trabalhar de maneira articulada são compreendidos apenas como formas sofisticadas de “ajudar”, toda uma dimensão intelectual e relacional do trabalho desaparece, justamente porque aprendemos socialmente a valorizar alguns trabalhos mais do que outros.

Por isso, tenho alguma resistência, hoje, a determinadas formas pelas quais nós mesmos tentamos defender o Secretariado. Durante muitos anos, uma das estratégias utilizadas para valorizar a profissão foi afirmar aquilo que uma secretária ou um secretário não faz, por sinal eu mesmo já utilizei dessa estratégia para conseguir atingir a grande massa numa reflexão sobre o que é o secretariado, no texto "Um breve panorama sobre o secretariado: para entender a profissão"Secretária não serve café. Secretário não é atendente. Secretária não está ali para organizar a vida pessoal do chefe. Secretário não é “quebra-galho”.

Entendo perfeitamente de onde essas afirmações surgiram. Elas foram, e em muitos contextos continuam sendo, respostas a uma visão extremamente limitada da profissão. Todavia, inclusive como autocrítica, precisemos avançar um pouco nessa discussão, pois não existe indignidade em servir um café, não existe inferioridade intelectual em atender um telefone, não existe trabalho menor em receber uma pessoa, organizar um ambiente, preparar uma reunião ou garantir que determinada informação chegue ao lugar correto.

O problema começa quando uma sociedade seleciona determinadas atividades, muitas delas historicamente associadas às mulheres e ao trabalho do cuidado, decide que são atividades menores e, depois, utiliza justamente essas atividades para definir a totalidade de uma profissão.

Nesse sentido, o estigma secretarial não diminui apenas o profissional, ele simplifica o trabalho. E talvez essa simplificação seja uma das formas mais eficientes de desvalorização.

Ao reduzir o Secretariado a um conjunto limitado de tarefas, retira-se da profissão aquilo que há de mais complexo em sua prática: a capacidade de articulação. O profissional de Secretariado trabalha, fundamentalmente, nas relações. Relações entre pessoas, informações, processos, tempos, interesses, recursos e decisões. Ele ocupa um lugar organizacional no qual diferentes fluxos se encontram e, justamente por isso, precisa desenvolver competências que nem sempre são facilmente visíveis.

Há uma diferença importante entre aquilo que um trabalho produz e aquilo que conseguimos ver sendo produzido. Em determinadas profissões, o produto é evidente. Há algo concreto, mensurável, identificável. No Secretariado, parte significativa do resultado está justamente naquilo que não aconteceu: o conflito que foi antecipado, a informação que não se perdeu, o prazo que não venceu, a reunião que aconteceu porque alguém articulou dezenas de pequenas condições, a decisão que pôde ser tomada porque informações foram organizadas previamente, a relação institucional que permaneceu funcionando porque alguém compreendeu os diferentes interesses presentes naquele espaço.

Talvez seja por isso que seja tão fácil confundir suporte com subalternidade.

Assessorar significa colocar conhecimentos e competências a serviço de determinado processo decisório ou organizacional. Mas nossa sociedade parece ter construído uma relação simbólica bastante particular entre quem assessora e quem é assessorado. Aquele que decide aparece; aquele que cria condições para que a decisão aconteça desaparece. Um ocupa simbolicamente o centro, o outro é colocado à margem. E, quando essa relação se encontra com uma profissão historicamente feminina, a divisão social e a divisão sexual do trabalho parecem se reforçar mutuamente.

Pesquisas sobre o trabalho secretarial já apontaram que sua construção social não pode ser explicada apenas pelas tarefas realizadas, porque fatores organizacionais e sociais interferem diretamente na formação de sua identidade profissional (Segregated Occupations and Gender Stereotyping: A Study of Secretarial Work in Europe). Da mesma forma, estudos mais recentes mostram que padrões estéticos e comportamentais ainda atravessam a empregabilidade no Secretariado, revelando que não se espera apenas determinado conjunto de competências: em muitos contextos, espera-se também determinado corpo, determinada aparência e determinada forma de comportamento (A Empregabilidade Em Secretariado Executivo: O Caso Dos Padrões Estéticos E Comportamentais, em Revista Expectativa).

Isso ajuda a explicar por que o estigma não atinge todos os profissionais da mesma maneira.

A mulher pode ser atravessada pela sexualização, pela expectativa estética e pela naturalização do cuidado. O homem pode ser questionado sobre sua masculinidade ou orientação sexual simplesmente por escolher uma profissão socialmente identificada como feminina. Profissionais que não correspondem ao padrão estético historicamente associado à “boa apresentação” também podem enfrentar outras barreiras. A literatura recente do campo vem mostrando justamente como gênero, sexualidade, aparência e profissão se cruzam na construção dessas experiências (Estereótipos de gênero no curso de secretariado executivo, em Revista GESec).

É por isso que me parece insuficiente chamar tudo isso apenas de preconceito. O preconceito existe, evidentemente, mas aquilo que estou chamando de estigma secretarial acontece antes, ele está no imaginário, na representação, na expectativa e naquilo que alguém acredita saber sobre nós antes de nos conhecer.

Em outro momento, quando escrevi sobre Secretariado e Assessoria, pensei a própria nomenclatura como uma possibilidade de enfrentamento de parte desses paradigmas. Continuo acreditando que as palavras importam, pois carregam histórias, representações e disputas. Mas hoje penso que a questão talvez seja mais profunda: podemos substituir “secretária” por “assessora”, “secretário executivo” por “executive assistant”, “assessor executivo”, “business partner” ou qualquer outra nomenclatura contemporânea; em determinados contextos, isso pode produzir efeitos positivos, mas mudar o nome não necessariamente transforma a estrutura simbólica que nos ensinou que algumas formas de trabalho possuem mais prestígio do que outras.

Talvez o desafio não seja apenas encontrar uma palavra nova para aquilo que fazemos, mas sim seja disputar o significado das palavras que já temos. E é justamente nessa direção que proponho este verbete.

Estigma secretarial é o processo social pelo qual representações historicamente construídas sobre o Secretariado atribuem previamente à profissão e aos seus profissionais características de subalternidade, simplicidade, dependência, feminização e coadjuvação, reduzindo a complexidade de sua prática e condicionando seu reconhecimento social e profissional.

Essa definição não pretende encerrar o conceito. Ao contrário, como todo conceito que nasce da tentativa de interpretar uma realidade social, interessa-me mais sua capacidade de provocar perguntas do que de oferecer respostas definitivas, pois reconhecer a existência de um estigma secretarial também exige que olhemos para nós mesmos.

Quantas vezes tentamos demonstrar a importância da nossa profissão nos afastando de outras ocupações que consideramos menos prestigiadas? Quantas vezes afirmamos que somos “gestores”, “consultores”, “estrategistas” ou “assessores” não apenas porque essas dimensões efetivamente compõem nossa atuação, mas porque acreditamos que elas nos colocam simbolicamente em um lugar social mais valorizado? Quantas vezes reproduzimos a mesma lógica de hierarquização do trabalho que, em outros momentos, utilizamos para denunciar a desvalorização da nossa própria profissão?

Essa reflexão me parece necessária porque combater um estigma não pode significar apenas deslocá-lo para outra pessoa. Não precisamos diminuir o trabalho administrativo para valorizar o Secretariado.; desprezar atividades operacionais para demonstrar nossa capacidade estratégica; negar nossa história para reivindicar nosso futuro; e, sobretudo, não precisamos provar que somos importantes porque estamos próximos de pessoas consideradas importantes.

Defendo que precisemos construir outra forma de reconhecimento, uma que compreenda o trabalho secretarial em sua complexidade sem precisar transformá-lo em outra coisa para que ele pareça digno de respeito. E sobre isso, ainda não tenho respostas ou receitas a serem seguidas, talvez pistas partindo da autocompreensão profissional. 

No fim, talvez o estigma secretarial revele menos sobre aquilo que o Secretariado é e muito mais sobre a maneira como nossa sociedade aprendeu a organizar simbolicamente o trabalho: quem aparece e quem permanece invisível; quem decide e quem cria as condições para a decisão; quais competências são reconhecidas como conhecimento e quais são tratadas como características naturais; quais atividades recebem prestígio e quais são consideradas menores; quais trabalhos, não por acaso historicamente associados às mulheres, aprendemos a enxergar como extensão do cuidado e não como exercício profissional.

Por isso, talvez a pergunta que devamos fazer daqui para frente não seja apenas: por que a sociedade ainda não compreendeu tudo aquilo que nós, profissionais de Secretariado, somos capazes de fazer? Há uma pergunta anterior, e talvez mais incômoda: por que aquilo que ela imagina que fazemos foi historicamente considerado tão pouco?


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