41 anos de Secretariado: carta aberta à categoria secretarial — 30 de setembro de 2026
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| Art por Angela Zima |
Carta aberta à categoria secretarial — 30 de setembro de 2026
Hoje é Dia Nacional do Profissional de Secretariado.
Em 30 de setembro de 1985, a Lei nº 7.377 regulamentou o exercício da profissão no Brasil. Isso significa que chegamos, neste 30 de setembro de 2026, aos 41 anos de regulamentação profissional. E 41 anos talvez seja uma boa idade para fazermos algumas perguntas incômodas.
Digo isso porque tenho a impressão de que, todos os anos, chegamos ao 30 de setembro repetindo palavras que aprendemos a associar à nossa profissão: evolução, transformação, protagonismo, estratégia, inovação, resiliência. Celebramos nossas conquistas (e devemos celebrá-las), mas talvez precisemos aproveitar a maturidade dos 41 anos para fazer algo um pouco mais difícil: olhar para aquilo que ainda não conseguimos resolver.
Em dezembro de 2020, escrevi a Agenda 2021 – Demandas urgentíssimas para profissionais de secretariado. Seis anos se passaram. Muita coisa mudou no mundo do trabalho desde então. Vivemos uma pandemia, consolidamos o trabalho remoto e híbrido, assistimos à popularização da inteligência artificial generativa, vimos desaparecerem algumas tarefas, surgirem outras e se intensificarem tantas mais.
Nisso, questiono-me: quanto das nossas demandas urgentíssimas de 2020 deixou de ser urgente em 2026?
Essa pergunta me inquieta porque alguns dos dados que levantávamos naquele período já revelavam uma profissão atravessada por contradições. Pesquisas realizadas naquele contexto mostravam profissionais altamente escolarizados convivendo com problemas básicos de enquadramento e reconhecimento profissional.
De que estratégico estamos falando?
Em 2021, foi publicada a pesquisa "Panorama do secretariado no Brasil sob a ótica da intensificação e da flexibilização do trabalho", dos grandes pesquisadores e amigos Fernanda Landolfi Maia e Rodrigo Müller, que apresenta um levantamento com 444 profissionais, onde 45% dos participantes eram bacharéis em Secretariado Executivo, 24,2% tecnólogos em Secretariado e 14% técnicos em Secretariado. Apesar disso, entre aqueles que possuíam registro formal de trabalho, 37,5% estavam registrados em funções diferentes das nomenclaturas secretariais. A pesquisa também mostrou que 37% dos participantes assessoravam mais de seis pessoas simultaneamente e que, ao lado das atividades tradicionais de assessoramento, apareciam administração de setores, controle financeiro, gestão de equipes, negociação e outras responsabilidades.
Não me parece um detalhe, mas sim a expressão de um problema que continuamos tentando resolver pelo discurso: ampliamos as responsabilidades do Secretariado muito mais rapidamente do que ampliamos o reconhecimento material dessas responsabilidades.
Talvez por isso eu tenha certa resistência quando ouço, mais uma vez, que “o profissional de Secretariado precisa se tornar estratégico”. Tenho defendido nos últimos anos justamente o contrário, pois nosso trabalho já carrega uma dimensão que tenho chamado de operacional estratégico. Organizar uma agenda não é simplesmente colocar compromissos em um calendário quando isso significa administrar prioridades, relações, interesses e poder. Gerenciar informações não é uma tarefa meramente operacional quando aquilo que selecionamos, organizamos, protegemos e fazemos circular interfere na tomada de decisão. Organizar uma reunião, acompanhar encaminhamentos, antecipar demandas, articular pessoas e instituições, produzir memória organizacional e mediar fluxos decisórios são atividades executadas no cotidiano, mas profundamente conectadas à estratégia das organizações.
Nosso problema, portanto, nunca foi a falta de estratégia, mas o fato de que a estratégia produzida pelo Secretariado frequentemente se torna invisível justamente porque acontece nos bastidores.
E existe uma consequência perigosa nisso, pois à medida que compramos sem muita crítica o discurso de que precisamos ser cada vez mais estratégicos, incorporamos novas atividades, novas competências, novas responsabilidades e novas exigências. Gestão de projetos, gestão de pessoas, comunicação, dados, governança, compliance, inteligência artificial, liderança, negociação, sustentabilidade. Tudo isso pode, evidentemente, compor a atuação secretarial contemporânea, mas precisamos questionar: esse aumento de responsabilidade veio acompanhado de aumento de autonomia, remuneração, reconhecimento e possibilidade de ascensão profissional?
Porque, se ampliamos indefinidamente aquilo que o profissional deve entregar sem ampliar as condições materiais em que esse trabalho acontece, não estaremos modernizando a profissão, mas sim sofisticando sua exploração.
Essa preocupação esteve presente quando escrevi, em 2022, o texto PLC 177/2017: um retrocesso para a categoria secretarial. Felizmente, o projeto foi arquivado. Louvado seja. Todavia a experiência nos deixou aprendizados importantes.
Um deles é que precisamos, sim, atualizar nossa Lei de Regulamentação Profissional.
Atualização da lei de regulamentação
A Lei nº 7.377/1985 foi fundamental para a consolidação do Secretariado brasileiro, mas as atividades profissionais descritas há quatro décadas precisam ser revisitadas à luz do trabalho contemporâneo. Precisamos discutir inteligência artificial, tecnologias digitais, gestão da informação, proteção de dados, comunicação organizacional, assessoramento remoto, gestão de projetos, processos decisórios e tantas outras dimensões que atravessam atualmente nosso fazer profissional.
Todavia, defendo que atualizar atribuições não significa inventar novas categorias profissionais.
Continuo defendendo que devemos preservar as duas categorias delimitadas em nossa legislação: Técnico em Secretariado e Secretário Executivo. Dentro delas, precisamos construir uma atualização suficientemente ampla para reconhecer as diferentes trajetórias formativas existentes, inclusive os cursos superiores de tecnologia, sem criar castas internas ou estabelecer uma competição artificial entre profissionais que, na prática, compartilham uma mesma identidade ocupacional.
Essa discussão me parece particularmente importante porque o Secretariado brasileiro já gastou energia demais tentando estabelecer quem é “mais Secretariado” dentro do próprio Secretariado.
Bacharéis contra tecnólogos. Formação superior contra formação técnica. Secretariado Executivo Bilíngue contra Trilíngue. Profissionais da academia contra profissionais do mercado. Secretários de grandes corporações contra aqueles que trabalham em pequenas organizações.
Uma profissão que ainda luta por reconhecimento social não pode continuar diminuindo a si mesma.
E há outra ameaça que torna essa discussão ainda mais urgente. Também em 2022 escrevi sobre o PL nº 3.081/2022 e os retrocessos para a classe trabalhadora e para o Secretariado. Quatro anos depois, o projeto continua em tramitação na Câmara dos Deputados e encontra-se pronto para pauta na Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania. Entre as inúmeras regulamentações profissionais que pretende revogar está justamente a nossa.
Ou seja, enquanto discutimos nossas diferenças internas, existe concretamente uma proposta legislativa discutindo se nossa regulamentação deve continuar existindo. Isso deveria nos dizer alguma coisa.
Defender a regulamentação, contudo, não pode significar simplesmente defender a manutenção de uma lei porque ela existe desde 1985. Precisamos ser capazes de explicar socialmente por que o Secretariado precisa ser uma profissão regulamentada, quais conhecimentos específicos sustentam seu exercício e que proteção social e profissional essa regulamentação produz.
Logo, precisamos, inevitavelmente, olhar a nossa formação.
Sobre a formação em secretariado
Precisamos discutir seriamente o que estamos ensinando nos cursos de Secretariado e, principalmente, o que distingue essa formação das demais formações existentes no campo das Ciências Sociais Aplicadas. Nossos currículos precisam dialogar com dados, inteligência artificial, gestão da informação, comunicação, projetos, idiomas, tecnologias, processos organizacionais e relações humanas. Todavia, precisamos nos perguntar: estamos formando profissionais para compreender criticamente as organizações ou apenas treinando pessoas para executar procedimentos dentro delas?
E mais: estamos produzindo uma formação propriamente secretarial ou transformando nossos cursos, pouco a pouco, em versões reduzidas de Administração?
Não considero essa uma discussão meramente acadêmica. Se não conseguimos explicar aquilo que existe de específico no conhecimento secretarial, teremos dificuldades para explicar por que alguém deveria cursar Secretariado, por que uma organização deveria contratar um profissional formado na área e, no limite, por que o Estado deveria manter uma regulamentação específica para nossa profissão.
Seria injusto de minha parte dizer que o Secretariado não produz conhecimento sobre si mesmo, pois produzimos e produzimos muito mais do que produzíamos há algumas décadas.
Temos núcleos importantes de produção científica vinculados a universidades públicas que mantêm cursos e pesquisadores dedicados à área. A Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste) constitui talvez um dos exemplos mais consolidados dessa trajetória, mantendo o GPSEB, criado em 2002 e reconhecido pela própria instituição como o primeiro grupo de pesquisa da área no Brasil, além da Revista Expectativa, criada em 2001 e dedicada historicamente às discussões do Secretariado.
Temos também produção e formação acontecendo em instituições como a Universidade Federal da Bahia (UFBA), a Universidade Federal da Paraíba (UFPB), a Universidade Federal do Ceará (UFC), a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), a Universidade Federal de Viçosa (UFV), a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), entre outras instituições que, em diferentes perspectivas, ajudam a sustentar a formação, a pesquisa e o debate acadêmico em Secretariado. A UFPB, por exemplo, mantém atualmente o Bacharelado em Secretariado Executivo Bilíngue; UFC, UFPE, UFV e UFSC também mantêm cursos superiores específicos na área.
Portanto, a pergunta já não pode ser apenas “produzimos conhecimento?”, ela precisa avançar: o que estamos fazendo com o conhecimento que produzimos?
Nossas pesquisas têm chegado aos profissionais? Nossos profissionais conhecem aquilo que nossas universidades pesquisam? Nossas entidades representativas utilizam esses estudos para formular propostas? Nossa produção científica tem subsidiado discussões legislativas? Temos conseguido transformar artigos, dissertações, teses, livros e pesquisas em dados capazes de sustentar políticas para a categoria?
Precisamos produzir mais, evidentemente, mas precisamos também acumular conhecimento. Precisamos construir séries históricas sobre número de profissionais, remuneração, empregabilidade, formação, perfil ocupacional, condições de trabalho, fechamento e abertura de cursos, novas formas de contratação e transformações tecnológicas. Não podemos redescobrir o Secretariado a cada nova pesquisa, amém?!
Uma profissão madura precisa construir memória sobre si mesma e também precisa discutir quem fala em seu nome, aqui entra, talvez, uma das questões mais delicadas desta carta.
Qual é a representação profissional que temos hoje?
Temos sindicatos, associações, Federação, coletivos, grupos profissionais, instituições de ensino, grupos de pesquisa e diferentes iniciativas construídas ao longo de décadas. Muitas delas foram e continuam sendo fundamentais para a história da profissão. A pergunta não pretende apagar esse trabalho, pretende justamente avançar a partir dele.
A estrutura que temos hoje consegue representar o profissional de Secretariado que existe em 2026? Consegue acompanhar projetos de lei? Fiscalizar ou denunciar situações de exercício irregular? Produzir dados nacionais? Dialogar sistematicamente com o Ministério do Trabalho, o Ministério da Educação, o Congresso Nacional, empregadores e instituições formadoras? Consegue reunir técnicos, tecnólogos e bacharéis em torno de uma agenda comum? Consegue acompanhar as transformações do mercado de trabalho? Consegue formular propostas nacionais para a categoria?
Se a resposta para parte dessas perguntas for não, precisamos questionar que tipo de representação queremos ter e que tipo de instituição precisaríamos construir para exercê-la?
Durante muito tempo, parte da categoria apostou na criação de um conselho profissional como resposta para algumas dessas questões. O próprio debate que resultou no PLC 177/2017 passou pela proposta de criação de Conselho Federal e Conselhos Regionais, posteriormente retirada do projeto. Talvez seja hora de retomarmos essa discussão sem respostas prontas.
Precisamos necessariamente de um conselho? Precisamos fortalecer sindicatos? Precisamos de uma organização nacional com outro desenho? Precisamos de uma estrutura que articule representação trabalhista, defesa profissional, produção de dados, formação continuada e incidência legislativa? Quais dessas funções pertencem a sindicatos, quais pertencem a associações, quais poderiam pertencer a um eventual conselho e quais deveriam permanecer nas universidades e organizações científicas?
Não tenho uma resposta fechada e acredito que o problema seja justamente termos passado tantos anos procurando respostas individuais para uma questão que só pode ser respondida coletivamente.
Essa ausência de respostas se torna ainda mais relevante quando olhamos para aquilo que está acontecendo com o trabalho.
A inteligência artificial nos exige um novo olhar
A inteligência artificial já redige documentos, resume reuniões, organiza informações, traduz textos, produz apresentações, analisa dados e auxilia no gerenciamento de agendas. Muitas atividades historicamente associadas ao Secretariado podem hoje ser automatizadas ou parcialmente automatizadas. Não há sentido em negar isso, também não há sentido em aderir ao pânico.
A questão que a inteligência artificial coloca para nós não é simplesmente se “o Secretariado vai acabar”. Essa pergunta é pobre, intimamente pobre e rasa. A pergunta interessante é outra: o que existe no trabalho secretarial que permanece relevante quando a execução técnica de determinadas tarefas deixa de depender exclusivamente de uma pessoa?
Essa transformação tecnológica nos obriga, finalmente, a olhar para aquilo que sempre esteve no centro da profissão e que nem sempre soubemos nomear, como interpretação de contextos, mediação de relações, gerenciamento de informações sensíveis, articulação institucional, antecipação de demandas, leitura das relações de poder, produção de confiança e suporte aos processos decisórios. Por sinal, já deixo um spoiler do meu novo texto que sairá dia 3 de outubro de 2026, às 7h55 da manhã, "A capacidade de articulação como técnica secretarial".
Se nossa identidade profissional estiver baseada apenas na execução de tarefas, estaremos vulneráveis. No contrário, se compreendermos o Secretariado como trabalho de assessoria, mediação, articulação e inteligência organizacional, a conversa muda completamente, mas isso também exige que abandonemos alguns estigmas que carregamos conosco.
Quarenta e um anos depois da regulamentação, ainda precisamos explicar que Secretariado não é sinônimo de subserviência. Ainda convivemos com uma representação social profundamente marcada por gênero, aparência, docilidade e disposição irrestrita para servir. E, pior, algumas dessas hierarquias são reproduzidas por nós mesmos.
Valorizamos profissionais pelo cargo de quem assessoram, pela empresa onde trabalham, pelo salário que recebem ou pelo prestígio do espaço que ocupam. Como se assessorar uma presidência tornasse alguém “mais Secretariado” do que assessorar uma pequena organização. Como se trabalhar em uma multinacional conferisse maior identidade profissional. Como se remuneração fosse medida de dignidade.
Aos 41 anos precisemos abandonar definitivamente essa adolescência profissional, pois não precisamos provar o tempo inteiro que somos importantes. Precisamos construir condições para que nossa importância seja materialmente reconhecida.
Isso significa legislação atualizada, formação consistente, salários dignos, carreira, pesquisa, representação, tecnologia, identidade profissional, condições adequadas de trabalho, produção de dados, defesa da regulamentação e, principalmente, participação da categoria nas decisões que dizem respeito ao seu próprio futuro.
Quando escrevi aquela agenda em 2020, chamava aquelas demandas de urgentíssimas, seis anos depois, algumas avançaram, outras mudaram de forma e algumas continuam assustadoramente atuais. Esse é o alerta que gostaria de deixar neste 30 de setembro: uma profissão não amadurece apenas porque o tempo passa, ela amadurece quando consegue aprender com o próprio tempo.
Em 1985, conquistamos uma regulamentação. Aos 41 anos, nosso desafio não pode ser simplesmente preservar aquilo que conquistamos. Precisamos decidir o que queremos fazer com essa conquista e que Secretariado queremos construir para as próximas décadas.
Precisamos ter coragem para revisar nossa legislação sem fragmentar nossa categoria; atualizar nossa formação sem dissolver nossa identidade; incorporar tecnologias sem naturalizar a precarização; produzir conhecimento sem isolá-lo dentro das universidades; fortalecer nossas instituições sem transformá-las em fins em si mesmas; e reconhecer nossas diferenças sem fazer delas novos muros.
Precisamos, sobretudo, parar de tratar críticas à profissão como ataques à profissão. Criticar o Secretariado também é cuidar do Secretariado.
O maior risco que enfrentamos talvez não seja a inteligência artificial, a desregulamentação, o desaparecimento de determinadas tarefas ou qualquer tecnologia que ainda venha a surgir, mas sim seja chegarmos aos 50 anos discutindo exatamente as mesmas questões que discutíamos aos 30. Por isso, neste 30 de setembro, mais do que parabéns, gostaria de deixar algumas perguntas.
Algumas perguntas para nosso tempo
- Que Secretariado queremos encontrar daqui a nove anos, quando completarmos meio século de regulamentação?
- Quem queremos que nos represente?
- Que formação queremos defender?
- Que trabalho estamos dispostos a reconhecer como nosso?
- E que profissão queremos entregar para quem chegará depois de nós?
Aos profissionais de Secretariado, feliz dia.
Aos 41 anos, já temos idade suficiente para parar de perguntar apenas se o Secretariado tem futuro, está na hora de começarmos a decidir, coletivamente, qual futuro queremos construir para ele.

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