O exercício diário que me ajudou a perdoar o meu "eu": o caminho do autoperdão

Owen Gent
Art by Owen Gent.

Existe uma crueldade silenciosa que muitas vezes praticamos contra nós mesmos: julgar nossa versão do passado com os conhecimentos e maturidade que possuímos hoje.

O adulto que você é agora olha para trás e encontra uma longa lista de decisões, omissões, escolhas equivocadas, medos, silêncios e situações que gostaria de ter enfrentado de outro modo. Nisso, surgem vários "eu deveria" em um tribunal interno permanente: "Eu deveria ter reagido", "Eu deveria ter percebido", "Eu deveria ter ido embora", "Eu deveria ter me defendido".

A grande questão é: como poderíamos saber naquela época aquilo que só aprendemos depois de atravessar tudo o que atravessamos? 

Nossa versão do passado não tinha acesso aos recursos emocionais, intelectuais e afetivos que construímos ao longo dos anos. Ela fazia o melhor que conseguia com as ferramentas disponíveis naquele momento. É aí que o perdão começa.


A criança que você foi não tinha as respostas

Grande parte dos sofrimentos que carregamos na vida adulta possui raízes profundas na infância ou na adolescência. Diversos de nossos gatilhos atuais não nasceram ontem, mas sim são ecos de experiências antigas: rejeições, humilhações, abandono, negligência, violência, críticas excessivas, ausência de acolhimento ou a sensação constante de não sermos suficientes.

Quando revisitamos essas cenas, costumamos direcionar a culpa para nós mesmos, numa postura totalmente egóica (onde somos centralizados na cena).

"Por que eu não falei nada?"
"Por que eu aceitei isso?"
"Por que eu não me defendi?"

Pensemos juntos: era razoável esperar maturidade emocional de uma criança? Era possível exigir autonomia de alguém que ainda estava aprendendo a existir?

Uma criança não possui os recursos psíquicos de um adulto. Ela depende do ambiente para interpretar o mundo, nomear seus sentimentos e encontrar proteção. Quando algo doloroso acontece, muitas vezes o problema não está na criança que não reagiu, mas nos adultos que deveriam protegê-la e não conseguiram fazê-lo. Mesmo aqui é importante ampliar o olhar: será que esses adultos possuíam as ferramentas emocionais necessárias para perceber o sofrimento que estava acontecendo? Será que eles mesmos não carregavam dores, ausências, traumas e limitações que jamais elaboraram?

Isso não significa justificar violências ou minimizar responsabilidades, mas sim apenas reconhecer a complexidade humana. Nem sempre encontramos vilões completos, muitas vezes encontramos pessoas incompletas tentando sobreviver à própria história.


O perdão como libertação

Perdoar a si mesmo é reconhecer que você fez o que era possível fazer com os recursos que possuía naquele momento. Não é sobre apagar o passado, muitos menos sobre fingir que nada aconteceu. É abandonar a fantasia de que poderia ter sido perfeito. Aceitar que o ser humano aprende vivendo, errando, caindo e reconstruindo caminhos.

Quando nos perdoamos, abrimos espaço para algo igualmente importante que é perdoar o outro, não porque ele necessariamente mereça, mas porque carregar eternamente o peso do ressentimento nos mantém presos à cena que nos feriu.

Perdoar não é inocentar e nunca será sobre isso, mas sim sobre deixar que o peso do passado continue governando o nosso presente, as nossas escolhas e o modo como interagimos com o mundo. É sobre deixar fluir.


Um exercício diário de autoanálise

Quando algum desconforto surgir ao longo do dia, experimente interromper o julgamento automático e fazer algumas perguntas:

1. O que exatamente me incomodou?

Tente identificar o gatilho:

  • Foi uma crítica?
  • Uma rejeição?
  • A sensação de não ser visto?
  • O medo de decepcionar alguém?
  • O sentimento de abandono?

2. Essa sensação me lembra algum momento da minha infância ou adolescência?

Permita que sua memória caminhe. Muitas vezes o sofrimento atual é apenas a reedição de uma dor antiga.

3. Quem estava naquela cena?

Observe todos os envolvidos.
  • Você.
  • Seus pais.
  • Professores.
  • Familiares.
  • Amigos.
  • Colegas.
Tente enxergá-los como seres humanos concretos, com suas limitações, histórias e contradições.

4. O que eu esperava que meu eu mais jovem tivesse feito?

Agora faça a pergunta mais importante:

Era razoável esperar isso de uma criança ou adolescente? Ou estou exigindo daquela versão uma maturidade que ela simplesmente não possuía?

5. Abrace seu eu do passado

Imagine aquela criança ou adolescente diante de você. Olhe para ela sem julgamento. Diga aquilo que talvez ninguém tenha dito na época:
  • "Você fez o melhor que podia."
  • "Você não tinha como saber."
  • "Você não precisava carregar tudo sozinho."
  • "Eu não vou mais te culpar.

Sem finalizar o debate

Lacan nos ensina que o sujeito nunca é completamente dono de si mesmo. Somos constituídos pela linguagem, pelos olhares dos outros, pelos desejos que nos atravessam e pelas histórias que herdamos antes mesmo de compreendê-las. Por isso, existe algo de impossível na tentativa de encontrar uma versão perfeita de nós mesmos no passado.

Junto a isso, o sujeito sempre é marcado pela falta, sempre haverá algo que não soubemos dizer, fazer ou compreender; e sempre haverá uma distância entre aquilo que fomos e aquilo que gostaríamos de ter sido. A maturidade talvez não esteja em eliminar essa falta, mas em aprender a conviver com ela.

Quando nos perdoamos, deixamos de exigir que o passado seja diferente e aceitamos que nossa história é feita de acertos e falhas, de consciência e desconhecimento, de potência e vulnerabilidade. E então podemos seguir adiante, não como sujeitos completos, porque ninguém é, mas como sujeitos reconciliados com a própria travessia.

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